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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

FREUD E O HUMOR





O HUMOR (1927)
DER HUMOR
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1927 Almanach 1928, 9-16.
1928 Imago, 14 (1), 1-6.
1928 G.S., 11, 402-8.
1048 G.W., 14, 383-9.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:
‘Humour’
1928 Int. J. Psycho-Anal., 9 (1), 1-6. (Trad. de Joan Riviere.)
1950 C.P., 5, 215-21. (Reimpressão revista da anterior.)


A presente tradução inglesa é versão corrigida da publicada em 1950.
Freud escreveu este artigo em cinco dias, durante a segunda semana de agosto de 1927
(Jones, 1957, p. 146), e ele foi lido, em seu nome, por Anna Freud, a 1º de setembro, perante o
X Congresso Psicanalítico Internacional, em Innsbruck. Foi publicado pela primeira vez no
outono do mesmo ano no ‘Almanaque’ psicanalítico referente a 1928.
O artigo retorna, depois de um intervalo de mais de vinte anos, ao tema examinado na
última seção do livro sobre os Chistes (1905c). Freud considera-o agora à luz de sua nova
representação estrutural da mente humana. Alguns pontos metapsicológicos interessantes
surgem nas últimas páginas do artigo e, pela primeira vez, encontramos o superego apresentado
num estado de espírito afável.


O HUMOR 


Em meu volume sobre Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente (1905c), na
realidade considerei o humor apenas do ponto de vista econômico. Meu objetivo era descobrir a
fonte do prazer que se obtém do humor e acho que pude demonstrar que a produção do prazer
humorístico surge de uma economia de gasto em relação ao sentimento. [Standard Ed., 8, 236.]
Há duas maneiras pelas quais o processo humorístico pode realizar-se. Ele pode dar-se
com relação a uma pessoa isolada, que, ela própria, adota a atitude humorística, ao passo que
uma segunda pessoa representa o papel de espectador que dela deriva prazer; ou pode efetuar-se entre duas pessoas, uma das quais não toma parte alguma no processo humorístico, mas é
tornada objeto de contemplação humorística pela outra. Quando, para tomar o exemplo mais
grosseiro [ibid., 201], um criminoso, levado à forca numa segunda-feira, comentou: ‘Bem, a
semana está começando otimamente’, ele mesmo estava produzindo o humor; o processo
humorístico se completa em sua própria pessoa e, evidentemente, concede-lhe certo senso de
satisfação. Eu, ouvinte não participante, sou afetado, por assim dizer, a longo alcance, por essa
produção humorística do criminoso; sinto, como ele talvez, a produção de prazer humorístico.
Temos um exemplo da segunda maneira pela qual o humor surge, quando um escritor
ou narrador descreve o comportamento de pessoas reais ou imaginárias de modo humorístico.
Essas próprias pessoas não precisam demonstrar humor algum; a atitude humorística interessa
apenas à pessoa que as está tomando como seu objeto, e, tal como no primeiro exemplo, o leitor
ou ouvinte partilha da fruição do humor. Para resumir, então, podemos dizer que a atitude
humorística - não importando em que consista - é possível de ser dirigida quer para o próprio eu
do indivíduo quer para outras pessoas; é de supor que ocasione uma produção de prazer à
pessoa que a adota, e uma produção semelhante de prazer vem a ser a quota do assistente não
participante.
Compreenderemos melhor a gênese da produção do prazer humorístico se
considerarmos o processo que se dá no ouvinte perante quem um outro produz humor. O ouvinte
vê esse outro numa situação que o leva a esperar que ele produza os sinais de um afeto, que
fique zangado, se queixe, expresse sofrimento, fique assustado ou horrorizado ou, talvez, até
mesmo desesperado; e o assistente ou ouvinte está preparado para acompanhar sua direçãoe
evocar os mesmos impulsos emocionais em si mesmo. Contudo, essa expectativa emocional é
desapontada; a outra pessoa não expressa afeto, mas faz uma pilhéria. O gasto de sentimento,
que é assim economizado, se transforma em prazer humorístico no ouvinte.
É fácil chegar até aí. Logo, porém, verificamos que é o processo que se realiza na outra
pessoa - o ‘humorista’ - que merece maior atenção. Não há dúvida de que a essência do humor
é poupar os afetos a que a situação naturalmente daria origem e afastar com uma pilhéria a
possibilidade de tais expressões de emoção. Até esse ponto, o processo no humorista tem de
concordar com o processo no ouvinte - ou, para dizê-lo mais corretamente, o processo no
ouvinte deve ter copiado o do humorista. Mas, de que modo este último ocasiona a atitude
mental que torna supérflua a liberação de afeto? Qual é a dinâmica de sua adoção da ‘atitude
humorística’? Evidentemente, a solução do problema deve ser buscada no humorista; no
ouvinte, temos de supor que existe apenas um eco, uma cópia, desse processo desconhecido.
Já é hora de nos familiarizarmos com algumas das características do humor. Como os
chistes e o cômico, o humor tem algo de liberador a seu respeito, mas possui também qualquer
coisa de grandeza e elevação, que faltam às outras duas maneiras de obter prazer da atividade
intelectual. Essa grandeza reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa dainvulnerabilidade do ego. O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a
permitir que seja compelido a sofrer. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do
mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões
para obter prazer. Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor.
Suponhamos que o criminoso levado para execução na segunda-feira dissesse: ‘Isso não me
preocupa. Que importância tem, afinal de contas, que um sujeito como eu seja enforcado? O
mundo não vai acabar por causa disso’. Teríamos de admitir que um discurso desse tipo
apresenta de fato a mesma magnífica superioridade sobre a situação real. É sábio e verdadeiro,
mas não revela traço de humor. Na verdade, baseia-se numa avaliação da realidade que vai
diretamente contra a avaliação feita pelo humor. O humor não é resignado, mas rebelde.
Significa não apenas o triunfo do ego, mas também o do princípio do prazer, que pode aqui
afirmar-se contra a crueldade das circunstâncias reais.
Essas duas últimas características - a rejeição das reivindicações da realidade e a
efetivação do princípio do prazer - aproximam o humor dos processos regressivos ou reativos
que tão amplamente atraem nossa atenção na psicopatologia. Seu desvio da possibilidade de
sofrimento coloca-o entrea extensa série de métodos que a mente humana construiu a fim de
fugir à compulsão para sofrer - uma série que começa com a neurose e culmina na loucura,
incluindo a intoxicação, a auto-absorção e o êxtase. Graças a essa vinculação, o humor possui
uma dignidade que falta completamente, por exemplo, aos chistes, pois estes servem
simplesmente para obter uma produção de prazer ou colocar essa produção, que foi obtida, a
serviço da agressão. Em que, então, consiste a atitude humorística, atitude por meio da qual
uma pessoa se recusa a sofrer, dá ênfase à invencibilidade do ego pelo mundo real, sustenta
vitoriosamente o princípio do prazer - e tudo isso em contraste com outros métodos que têm os
mesmos intuitos, sem ultrapassar os limites da saúde mental? As duas realizações parecem
incompatíveis.
Se retornarmos à situação em que determinada pessoa adota uma atitude humorística
para com outros, uma conceituação que já apresentei experimentalmente em meu livro sobre
chistes se sugerirá por si mesma em seguida. É que o indivíduo se comporta para com eles
como um adulto o faz com uma criança, quando identifica e sorri da trivialidade dos interesses e
sofrimentos que parecem tão grandes a esta última [ibid., 205]. Assim, o humorista adquiriria sua
superioridade por assumir o papel do adulto, identificar-se até certo ponto com o pai, e reduzir as
outras pessoas a crianças. Essa conceituação provavelmente abrange os fatos, embora
dificilmente pareça ser conclusiva. Perguntamo-nos o que é que faz o humorista arrogar-se esse
papel.
Mas temos de recordar a outra situação de humor, provavelmente mais primária e mais
importante, na qual uma pessoa adota uma atitude humorística para consigo mesma, a fim de
manter afastados possíveis sofrimentos. Há sentido em dizer que alguém está-se tratando a sipróprio como criança e, ao mesmo tempo, desempenhando o papel de um adulto superior para
com essa criança?
Essa idéia não muito plausível receberá apoio bastante forte, penso eu, se levarmos em
consideração aquilo que aprendemos das observações patológicas sobre a estrutura do ego.
Esse ego não é uma entidade simples. Abriga dentro dele, como seu núcleo, um agente
especial: o superego. Às vezes, acha-se fundido com o superego de maneira que não podemos
fazerdistinção entre eles, ao passo que, em outras circunstâncias, se acha nitidamente
diferenciado dele. Geneticamente o superego é o herdeiro do agente paterno. Freqüentemente
ele mantém o ego em estrita dependência e, ainda, realmente o trata como os genitores, ou o
pai, outrora trataram o filho, em seus primeiros anos. Obteremos uma explicação dinâmica da
atitude humorística, portanto, se supusermos que ela consiste em ter o humorista retirado a
ênfase psíquica de seu ego, transpondo-a para o superego. Para o superego, assim inflado, o
ego pode parecer minúsculo, e triviais todos os seus interesses, e, com essa nova distribuição
de energia, pode tornar-se coisa fácil para o superego reprimir as possibilidades de reação do
ego.
A fim de permanecermos fiéis à nossa fraseologia habitual, teremos de falar, não de
transportar a ênfase psíquica, mas de deslocar grandes quantidades de catexia. A questão,
então, é saber se temos o direito de representar amplos deslocamentos como esse, de um
agente do aparelho psíquico para outro. Isso parece ser uma nova hipótese, construída ad hoc.
Contudo, podemos lembrar-nos de que repetidamente (ainda que não com suficiente freqüência)
tomamos um fator desse tipo em consideração nas nossas tentativas de representação
metapsicológica dos acontecimentos mentais. Assim, por exemplo, supomos que a diferença
entre uma catexia objetal erótica normal e o estado de se achar enamorado é que, neste último,
uma catexia incomparavelmente maior se transfere para o objeto, e que o ego se esvazia, por
assim dizer, em favor do objeto. Estudando certos casos de paranóia, pude estabelecer o fato de
que idéias de perseguição se formam precocemente e existem por longo tempo sem qualquer
efeito perceptível, até que, em resultado de determinado acontecimento precipitante específico,
recebe quantidades de catexia suficientes para levá-las a se tornarem dominantes. Também a
cura de tais crises paranóicas residiria não tanto numa solução e correção das idéias delirantes,
quanto numa retirada delas da catexia que lhes foi emprestada. As alternações entre melancolia
e mania, entre uma cruel opressão do ego pelo superego e uma liberação do ego após essa
pressão, sugerem um deslocamento de catexia desse tipo; tal deslocamento, ademais, teria de
ser introduzido para explicar um grande número de fenômenos que pertencem à vida mental
normal. Se, até o presente, isso só foi feito em grau muito limitado, o fato deve-se à nossa
cautela usual, algo que só merecelouvor. A região em que nos sentimos seguros é a da patologia
da vida mental; é aqui que efetuamos nossas observações e adquirimos nossas convicções.
Atualmente, só nos aventuramos a formar um juízo sobre a mente normal na medida em quepodemos discernir o que é normal nos isolamentos e deformações do material patológico. Uma
vez superada essa hesitação, reconhecermos quão grande é a contribuição efetuada à
compreensão dos processos mentais tanto pelas condições estáticas quanto pelas alterações
dinâmicas da quantidade da catexia energética.
Acho, portanto, que a possibilidade que aqui sugeri, a de que, numa situação específica,
o indivíduo subitamente hipercatexize seu superego, e então, a partir disso, altere as reações do
ego, merece ser retida. Ademais, o que sugeri sobre o humor encontra analogia digna de nota no
campo aparentado dos chistes. Quanto à origem destes, fui levado a supor que um pensamento
pré-consciente é entregue por um momento à revisão inconsciente [ibid., 166]. Um chiste é,
portanto, a contribuição feita ao cômico pelo inconsciente [ibid., 208]. Exatamente do mesmo
modo, o humor seria a contribuição feita ao cômico pela intervenção do superego.
Com respeito a outros assuntos, conhecemos o superego como um senhor severo. Dirse-á que não combina bem com tal caráter o fato de o superego condescender em capacitar o
ego a obter uma pequena produção de prazer. É verdade que o prazer humorístico jamais
alcança a intensidade do prazer do cômico ou dos chistes, que jamais encontra vazão no riso
cordial. Também é verdade que, ocasionando a atitude humorística, o superego está realmente
repudiando a realidade e servindo a uma ilusão. Entretanto (sem saber exatamente por quê),
encaramos esse prazer menos intenso como possuindo um caráter de valor muito alto; sentimos
que ele é especialmente liberador e enobrecedor. Além disso, a pilhéria feita por humor não é o
essencial. Ela tem apenas o valor de algo preliminar. O principal é a intenção que o humor
transmite, esteja agindo em relação quer ao eu quer as outras pessoas. Significa: ‘Olhem! Aqui
está o mundo, que parece tão perigoso! Não passa de um jogo de crianças, digno apenas de
que sobre ele se faça uma pilhéria!’
Se é realmente o superego que, no humor, fala essas bondosas palavras de conforto ao
ego intimidado, isso nos ensinará que ainda temos muito a aprender sobre a natureza do
superego. Ademais, nem todas as pessoas são capazes da atitude humorística. Trata-se de um
dom raro e precioso, e muitas sequer dispõem da capacidade de fruir o prazer humorístico que
lhes é apresentado. E finalmente, se o superego tenta, através do humor, consolar o ego e
protegê-lo do sofrimento, isso não contradiz sua origem no agente paterno.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Conversando com Sigmund Freud


Breve Diálogo Com a
Obra do Criador da Psicanálise
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
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O texto a seguir foi construído com
a mesma técnica, bibliograficamente
documentada, utilizada no livro “Conversas
na Biblioteca - um diálogo de 25 séculos”,
de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Edifurb, 
Blumenau, 2007, 170 pp. , www.furb.br/editora ).  
 
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É grande o valor da contribuição de Sigmund Freud e da psicanálise para que se possa compreender melhor a enganosa relação da alma humana com os instintos animais.
 
Freud incluiu em suas pesquisas psicanalíticas as mais diferentes áreas de conhecimento - inclusive fisiologia, história, antropologia, mitologia e literatura de ficção - e provocou com sua obra um avanço significativo do conhecimento humano. Infelizmente, não rompeu com a visão materialista da vida e, vivendo na primeira metade do século 20, não lhe foi dado o dom do otimismo.    
 
Reconhecido como um dos pensadores mais importantes desde o surgimento da ciência moderna, Freud nasceu em seis de maio de 1856, na Morávia, e foi viver em Viena quatro anos depois. Tinha pouco mais de 40 anos quando criou a psicanálise. No final da vida, a consagração internacional veio junto com o perigo. Idoso, judeu, ele mudou-se para a Inglaterra para evitar a perseguição nazista.  Morreu em Londres aos 83 anos de idade.      
 
Todo pesquisador tem erros e acertos. As  limitações de Freud, do ponto de vista da filosofia esotérica, são evidentes. Ao examinar a emoção humana diante da beleza, por exemplo, ele afirma que a atração pelo belo é uma função sexual [1]. Esqueceu que a beleza do nascer do Sol, da lua cheia, das estrelas à noite e das paisagens naturais emociona a quase todos. Há vários outros aspectos frágeis em sua obra. Mesmo assim, o valor dela é inegável.      
 
Uma parte fundamental do pensamento de Freud ainda está por ser compreendida. A sua visão científica sobre as grandes religiões modernas é subestimada hoje inclusive nos meios esotéricos, embora todo espiritualista tenha vários motivos para libertar-se de dogmatismos e para aceitar os métodos da ciência moderna, sem cair em suas ilusões materialistas.   
 
No século 21, o enfoque de Freud sobre as religiões torna-se cada vez mais atual e necessário, enquanto o mundo enfrenta fenômenos como fanatismo fundamentalista, intolerância, guerra santa, terrorismo religioso e abuso de crianças por parte de sacerdotes católicos. 
 
Freud revelou os aspectos neuróticos e até criminosos da religião autoritária. Ele também revelou a única “divindade” em que acreditava: o Logos grego, a divina Razão universal.
 
Sua longa vida foi dedicada ao progresso da alma humana, mas não rotulou  seu próprio trabalho com slogans idealistas ou palavras-de-ordem aparentemente sublimes. Compartilhando os méritos e as limitações da ciência moderna, sua obra é uma das grandes expressões do humanismo do século 20. 
 
No campo maior do pensamento psicológico, o contraste entre Sigmund Freud e Carl Jung não é apenas pessoal, mas filosófico. Freud nunca se apresentou como espiritualista, mas defendia a ética, era judeu e foi perseguido. Jung adotou ares de espiritualista, mas ignorou a ética, escreveu textos com um tom anti-semita, não via diferença entre verdade e ilusão ou fantasia e - durante a fase ascendente do nazismo, na década de 1930 -  ocupou cargo de confiança no regime de Hitler.
 
A Psicologia vai além de Freud e Jung. Pensadores como Erich Fromm e Viktor Frankl, entre outros,  deram grandes contribuições ao pensamento psicológico, adotando pontos de vista eticamente corretos e mais claramente compatíveis com a transcendência da filosofia esotérica do que o ponto de vista adotado por Freud. Para uma avaliação adequada  das relações entre psicologia e teosofia, as ideias de Fromm e Frankl devem ser estudadas e reconhecidas.
 
A seguir, um breve diálogo com aspectos filosóficos da obra de Freud, um pensador que soube trazer para o dia claro as motivações inconscientes da alma humana, no que elas têm de primário e de instintivo, mas que também percebeu em algum momento algo maior e mais amplo, e investigou a origem da felicidade.[2]
 
 
1) O senhor não se filia à tradição esotérica, mas dá elementos para que as pessoas se libertem dos grilhões emocionais que as prendem ao mundo do desejo ilusório. O senhor não acredita nas religiões - e evita toda linguagem espiritualista - mas tem acesso a um saber que o coloca no território dos grandes pensadores de todos os tempos...
 
O nosso deus, o Logos, a Razão, talvez não seja um deus muito poderoso, e poderá ser capaz de efetuar apenas uma pequena parte do que seus antecessores [os outros deuses] prometeram.  Se tivermos de reconhecer isso, o faremos com resignação.  Não será por causa disso que perderemos nosso interesse no mundo e na vida, pois dispomos de um apoio seguro (...). Acreditamos ser possível ao trabalho científico conseguir um certo conhecimento da realidade do mundo, conhecimento através do qual podemos aumentar nosso poder e de acordo com o qual podemos organizar nossa vida.  
 
2) Para os gregos, o Logos é a razão divina. Ele pode ser percebido como uma voz suave dentro da consciência de cada ser humano. O Logos se relaciona com o Nous ou Intelecto, a inteligência pura...
 
A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue atenção. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, ela obtém êxito.  Esse é um dos pontos sobre os quais se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade e, em si mesmo, não é de pouca importância.
 
3) Os raja-iogues dos Himalaias que inspiraram a criação do movimento teosófico moderno ensinam que a busca da sabedoria divina é uma questão científica e não de crença religiosa. Um deles escreveu:“Um sentimento constante de dependência abjeta em relação a  uma Divindade vista como única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança(...). Ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão.” [3]  O que o senhor pensa disso? A crença religiosa convencional retira das pessoas a escolha e a responsabilidade?
 
A religião restringe o jogo de escolha e adaptação, na medida em que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar a vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante - uma maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixar as pessoas à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas de uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais que isso. Existem muitos caminhos que podem levar à felicidade possível de ser alcançada pelos homens, mas nenhum caminho que o faça com toda segurança.
 
4) Certa vez, ao visitar a Grécia, o senhor sentiu que estava rejeitando emocionalmente uma sensação de felicidade, como se fosse algo excessivamente bom, que não merecia...
 
Esse é mais um caso de “bom demais para ser verdade”, que encontramos com tanta freqüência. É um exemplo de incredulidade que surge tantas vezes quando nos surpreendemos com uma boa notícia, quando sabemos que ganhamos um prêmio, por exemplo, ou que tivemos uma vitória (...). O que acontece [nesse] caso paradoxal é simplesmente que o lugar da frustração externa é tomado pela frustração interna. O sofredor não se permite a felicidade; a frustração interna ordena-lhe que se apegue à frustração externa.  Mas por quê? Porque – essa é a resposta, em muitos casos – a pessoa não pode esperar que o Destino lhe proporcione algo tão bom. (...) Encontramos um sentimento de culpa ou de inferioridade, que pode ser traduzido assim: “Não mereço tanta felicidade, não a mereço”.
 
5) E como podemos buscar a felicidade com mais eficiência?
 
O projeto de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado. Contudo, não devemos -  na verdade não podemos - abandonar nossos esforços de aproximar-nos dessa realização, de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção, e podemos dar prioridade  ao aspecto positivo da meta, obter prazer, ou ao aspecto negativo, evitar o desprazer. Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos. A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido [isto é, da administração do instinto vital] do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: cada homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado a tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de  adaptá-lo a seus desejos.
 
 
NOTAS:
 
[1] “O Mal-Estar na Civilização”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 112 pp., ver pp. 32-33.
 
[2] Quando necessário para facilitar a compreensão, acrescento algumas palavras explicativas entre colchetes e em itálico. Fontes das respostas: 1) “O Futuro de Uma Ilusão”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 87 pp., ver p. 85; 2) “O Futuro de Uma Ilusão”, obra citada, p. 83;  3) “O Mal-Estar na Civilização”, obra citada, p. 35; 4) “Um Distúrbio de Memória na Acrópole”, ver Edição Standard das Obras de Freud,  volume XXII, Ed. Imago, pp. 239 a 241;  5) “O Mal-Estar na Civilização”, ob. cit., pp. 33-34.
 
[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 43, primeira série, pp.103-104.
 
 
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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na revista “Planeta”, de São Paulo, em sua edição de outubro de 2004.
 
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Para Ler Mais:
 
Para saber mais sobre a relação entre a Psicanálise e a Teosofia, veja o capítulo 11 da obra “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília, 2002, 194 pp. O capítulo é intitulado “A Psicanálise das Religiões”.
 
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Visite sempre www.filosofiaesoterica.com  e  www.teosofiaoriginal.com . Para ter acesso a um estudo diário da teosofia original, escreva a lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.
 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

INCONSCIENTE

Chegando ao Inconsciente
.......” os psicólogos admitem a existência de uma psique inconsciente apesar de muitos cientistas e filósofos negarem-lhe a existência. Argumentam ingenuamente que tal pressuposição implica a existência de dois “sujeitos” ou (em linguagem comum) de duas personalidades dentro do mesmo indivíduo. E estão inteiramente certos: é exatamente isto o que ela implica. É uma das maldições do homem moderno esta divisão de personalidades. Não é, de forma alguma, um sintoma patológico: é um fato normal, que pode ser observado em qualquer época e em quaisquer lugares............. O homem desenvolveu vagarosa e laboriosamente a sua consciência, num processo que levou um tempo infindável, até alcançar o estado civilizado (arbitrariamente datado de quando se inventou a escrita, mais ou menos no ano 4.000 A.C.) E esta evolução está longe da conclusão pois grandes áreas da mente humana ainda estão mergulhadas em trevas. O que chamamos psique não pode, de modo algum, ser identificado com a nossa consciência e o seu conteúdo.Quem quer que negue a existência do inconsciente está, de fato, admitindo que hoje em dia temos um conhecimento total da psique. É uma suposição evidentemente tão falsa quanto a pretensão de que sabemos tudo a respeito do universo físico.................Há motivos históricos para esta resistência à idéia de que existe uma parte desconhecida na psique humana. A consciência é uma aquisição muito recente da natureza e está num estágio “experimental”. É frágil, sujeita a ameaças de perigos específicos e facilmente danificável. Como já observaram os antropólogos, um dos acidentes mentais mais comuns entre os povos primitivos é o que eles chamam “a perda da alma” – que significa, como bem indica o nome, uma ruptura (ou, mais tecnicamente, uma dissociação) da consciência.Entre estes povos, para quem a consciência tem um nível de desenvolvimento diverso do nosso, a “alma” (ou psique) não é compreendida como uma unidade...............Certas tribos acreditam que o homem tem várias almas. Esta crença traduz o sentimento de alguns povos primitivos de que cada um deles é constituído de várias unidades interligadas apesar de distintas. Isto significa que a psique do indivíduo está longe de ser seguramente unificada. Ao contrário, ameaça fragmentar-se muito facilmente sob o assalto de emoções incontidas.Estes fatos, com os quais nos familiarizamos através dos estudos dos antropólogos, não são tão irrelevantes como parecem. Também nós podemos sofrer uma dissociação e perder nossa identidade. Podemos ser dominados e perturbados por nossos humores, ou tornarmo-nos insensatos e incapazes de recordar fatos importantes que nos dizem respeito e a outras pessoas, provocando a pergunta: “Que diabo se passa com você?”. Pretendemos ser capazes de “nos controlarmos”, mas o controle de si mesmo é virtude das mais raras e extraordinárias. Podemos ter a ilusão de que nos controlamos, mas um amigo facilmente poderá dizer-nos coisas a nosso respeito de que não tínhamos a menor consciência.Carl Jung
Por estas afirmações de Jung vemos como sempre se fala do inconsciente a partir do consciente, até mesmo como a sua negação, mas o que é inconsciente?
No dicionário Caldas Aulete encontramos:“ Inconsciente – que não tem consciência de si mesmo, dos seus atos; a parte de nossa vida psíquica excluída da consciência por recalcamento.”
Assim, inconsciente sempre aparece como adjetivo, como aquilo que não é consciente.
Freud porém nos apresenta o ICS como substantivo, como um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria.
Na 1ª tópica Freud sistematiza o ICS tentando ordenar os conteúdos representativos das pulsões. Segundo Zeferino Rocha “ numa atitude apolínea”,.... tenta controlar com a razão o mundo irracional do ICS.”Na 2ª tópica Freud dá prioridade à dimensão pulsional do ICS, passando a “ocupar o 1º plano o elemento dionisíaco”. Freud apela para um além da razão.Assim podemos definir, baseados em Freud, o ICS como: um sistema dinâmico regido pelo processo primário, que se estrutura como um campo de forças.
Muitas vezes – antes e depois de Freud – o ICS foi identificado com o caos, o ilógico, o mistério.
Segundo Scarlett Marton o termo ICS no pensamento de Nietzsche designa o domínio que escapa à linguagem, o domínio do indizível, não podendo remeter a nenhum princípio ordenador mas significando silêncio, singularidade, indizibilidade.
O ICS então, não seria derivado da consciência, não seria formado de conteúdos recalcados de representações conscientes.
Deleuze distingue dois usos do termo ICS na obra de Nietzsche: um para caracterizar a atividade, de forma geral, e outro para designar um dos sistemas do aparelho reativo. As forças reativas sempre limitam a ação, dividem. As forças ativas são um estado de expansão, intensificação; elas afirmam a potência, criam valores.
Para Naffah Neto “ o ICS ativo é que constitui de fato o ICS no sentido forte do termo. O ICS reativo só é ICS no sentido tópico do conceito, quer dizer, na medida em que ele corresponde a um passado que precisa se manter afastado da consciência para que esta acompanhe os movimentos do real, e o presente possa ser o tempo dominante. Em outros termos, ele só é ICS porque o homem está constituído por uma temporalidade e precisa, devido às necessidades adaptativas, manter um reservatório de memória disponível à consciência mas distinto dela........”já disse Suely Rolnik: Ele (o ICS) designa um universo indizível e invisível, marginal à consciência e com o qual é preciso entrar em ressonância. Invisível e indizível, porque é fluxo, devir, sem forma ou representação definida, campo de forças móveis e vibráteis. Espaço virtual, gerador de novos códigos, onde reencontramos a pulsação da vida na sua forma afirmativa: o sim inicial a tudo o que é humano”.............
Com base no princípio nietzschiano, o ICS seria um conjunto de forças móveis, indizíveis/invisíveis, que não tolera formas fechadas, acabadas, excludentes; não conhece ordem; suas leis são o acaso, o devir, a multiplicidade. Não conhece morada fixa, sendo o eterno construir e destruir de si próprio.
O ICS de Freud – do recalcado, não se opõe ao ICS da vontade de potência, do esquecimento de Nietzsche. Em arte terapia trabalhamos somando conceitos, teorias, experiências.
É necessário estabelecer a diferença entre recalque e esquecimento.O recalque é um dos destinos do representante ideativo das pulsões, tendo por finalidade evitar o desprazer. O outro representante psíquico da pulsão – o afeto – não pode, ele mesmo, ser recalcado. O que se torna ICS é a idéia à qual o afeto estava ligado, podendo também ser deslocado para outra idéia.Em outras palavras o recalque afasta as representações da consciência, separando-as das palavras, evitando o desprazer. Entretanto estas representações continuam atuando de forma subterrânea, reaparecendo através do retorno do recalcado.O esquecimento é um mecanismo não consciente, que descreve um processo de elaboração ativa de digestão das experiências, ou seja, a plasticidade das forças ativas regenera, remodela, torna possível a digestão das experiências.
.......".um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente mudando, eternamente recorrentes, com descomunais anos de retorno, como uma vazante e enchente de suas configurações, partindo das mais simples às mais múltiplas, do mais quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez voltando da plenitude ao simples, do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância (..), como um vir a ser que não conhece nenhuma sociedade, nenhum fastio, nenhum cansaço – esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio (..) quereis um nome para esse mundo? (..) Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós sois essa vontade de potência – e nada além disso."Nietzsche