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terça-feira, 7 de junho de 2011

A Ecologia da Mente

A Ecologia da Mente


Meios Para Encontrar a Harmonia Interior


Carlos CardosoAveline

O equilíbrio ecológico é apenas a fraternidade, a harmonia, e a relação de causa-e-efeito unindo as diferentes formas de vida nos vários reinos da natureza. Mas sou humano, tenho muito por aprender, e é correto que me pergunte: 

“Será possível viver de fato a fraternidade no dia-a-dia da sociedade que me rodeia hoje? Como posso  viver uma ecologia interior, harmonizando-me com a vida humana em geral, aqui e agora, por meu próprio mérito e esforço e  sem impor condições prévias aos outros?

Algumas idéias básicas podem ser úteis na tentativa de viver a ecologia da mente e de ser igualmente fraterno para com todos.

1 ) Em primeiro lugar o erro alheio não deve fazer com que eu me sinta autorizado, nem remotamente, a errar da minha parte. Perceber um erro não justifica outro.A verdadeira auto-estima não surge da comparação em que se atribui desvantagem aos outros. A satisfação com o erro alheio é muitas vezes uma fuga de nossas próprias frustrações, e deve ser vencida pela observação atenta do mecanismo da inveja e da competição.

 2 ) O erro alheio não deve causar excessiva indignação. Pode-se combater o erro alheio, especialmente quando ele tem conseqüências negativas sobre os inocentes. Mas a indignação excessiva nos cega e tira a serenidade.  É preciso combater o erro, não a pessoa que errou. E a indignação exagerada diante do erro pode ser um disfarce da inveja. Perde-se muita energia com indignação emocional diante dos erros alheios.  Em alguns casos, estes erros são inclusive imaginários, no todo ou em parte.  O excesso de indignação é uma energia que seria melhor empregada no nosso próprio auto-aperfeiçoamento. Esta última tarefa é algo que ninguém pode fazer por nós.

3 ) Saber ouvir a crítica aos nossos  próprios erros. Ouvir os outros, em geral, já é difícil. Ouvir uma crítica  a nós é mais difícil ainda. Inconscientemente, gostamos de supor que somos infalíveis. É preciso ouvir de fato as críticas dirigidas a nós. São verdadeiras?  Então é  preciso coragem para mudar. São falsas? Depois de um exame honesto, neste caso, devemos deixar que a crítica injusta entre por um ouvido e saia pelo outro.

4 ) Não devo enxergar erros alheios onde eles não existem.Muitos erros alheios são miragem e alucinação. É cômodo transferir para fora pontos fracos nossos, ou exagerar  as falhas dos outros para poder chegar à conclusão de que somos perfeitos, e apenas o mundo é que – injustamente – não nos compreende.

5 ) Devo fazer o bem. Não basta manter-me livre tanto do mal quanto do sentimento de raiva contra o mal. É preciso também fazer coisas boas, duráveis, equilibradas. E isto não só no aspecto pessoal, como também na dimensão familiar, social e política. Porque não há muros dividindo um setor e outro da nossa vida. Não é a crítica que elimina o mal, mas a prática firme e paciente do bem, por parte de quem procura ter o máximo de discernimento diante da vida.

6 ) Devo tornar acessível aos outros a prática do equilíbrio e da harmonia. Em casa, no trabalho, na convivência com pessoas e animais, devo colocar ao alcance de todos alguns mecanismos simples, pelos quais a fraternidade humana possa manifestar-se. Isto será eficaz na medida da simplicidade pessoal com que for feito. Deve ser algo natural. Se não estiver ocorrendo, todo o processo precisa ser repensado, porque está faltando algo importante.

7 ) Ter uma meta e um programa definidos para minha vida. A vida de uma pessoa é algo demasiado importante para perder-se em meio aos problemas e ilusões diárias, lembranças de ontem e esperanças para a semana que vem. Quais são os meus objetivos existenciais? De que forma  pretendo fazer da minha vida algo realmente significativo e útil? O que desejo aprender – e realizar – até os 90 anos de idade? São perguntas importantes. E não é por casualidade que, quando enfrentadas, acabam conduzindo aos outros seis pontos abordados anteriormente. O sétimo ponto é, de certa forma, o primeiro.

Assim, a ecologia da mente está presente em nossos relacionamentos e vida diária, em nossos pensamentos e emoções. Antes de olharmos o ecossistema externo, é bom olharmos para o nosso conteúdo interior. Estaremos sendo ecologicamente corretos nos campos das relações humanas?

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O texto acima corresponde ao capítulo quatro da obra “Apontando Para o Futuro”, Carlos Cardoso Aveline, Ed. PrajnaParamita, Porto Alegre, 1996.

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segunda-feira, 23 de maio de 2011

A Importância da Atenção

Trazendo hoje este excelente texto sobre atenção, de um ponto de vista diferenciado.





 
Por Que o Fato de Estar Atento
Acelera o Crescimento Pessoal
 
 
Um Autor Anônimo
 
 
O verdadeiro estudo de qualquer área de conhecimento consiste em dedicar aos seus temas, repetidamente, uma tal quantidade de atenta consideração que, no final,  ela se torna parte integrante da consciência, e pode ser usada por uma ação mental automática em qualquer momento e em resposta a qualquer estímulo relacionado a ela.
 
O verdadeiro estudo de uma Arte consiste, primariamente, na repetição atenta da ação dos órgãos fisiológicos envolvidos na prática daquela Arte, até que aquela ação se torne automática,  e seja realizada tão bem e tão naturalmente quanto qualquer função fisiológica reflexa original.  
 
Nessas definições, a palavra que qualifica o progresso necessário é  o adjetivo atento, que assinala a presença da atenção durante a atividade. Sem esta palavra, as definições não só ficariam imperfeitas, mas seriam essencialmente incorretas e enganosas.
 
Só quando têm a qualidade de serem atentas é que a consideração e a ação repetidas podem produzir, por um lado, a posse de um novo campo de conhecimento,  e por outro lado, a posse  de uma nova área de poder.
 
Qual é a natureza e o modo de expressão  dessa suprema qualidade, a Atenção?
 
Uma visão intelectual adequada dessa questão, e a compreensão da influência desse tema nos processos da evolução humana pessoal, são elementos fundamentais para o conhecimento e a visão de um verdadeiro educador, seja ele um professor ou não.
  
A palavra Atenção é usada de modo amplo, mas vago, no ambiente educacional. No entanto não temos outra palavra para  descrever  coloquialmente aquela atitude de consciência que, em qualquer processo de estudo ou de aquisição de poder, é absoluta e continuamente exigida, para que possa haver resultados reais. O termo concentração é mais literalmente correto,  mas ‘concentração’ tem, na maior parte dos casos, uma aplicação demasiado limitada e específica. No uso comum,  é mais adequada a palavra “Atenção’.
 
No entanto,  a Atenção que estamos discutindo, a atenção de  todos os processos de aquisição de conhecimento, talvez possa ser melhor compreendida se for vista como Atenção Concentrada. 
 
A atenção  é aquela condição ou atitude em  que os raios da consciência estão firmemente e sem exceção centrados na coisa que está sendo feita ou no tema em  estudo.  Isso pode ser apresentado à consciência por um,  ou por mais de um,   dos sentidos;  ou pode já ser um conteúdo da mente. O elemento especial nessa  atitude é a concentração com que a consciência opera.  Essa concentração deve chegar a um ponto em que todos os outros objetos mentais ou sensíveis, exceto o único, tornam-se alheios ao seu campo de percepção.
 
No esforço para alcançar isso - para manter a atenção concentrada  -  a Vontade do indivíduo entra em ação, e a sua função no processo pode ser comparada ao papel que uma  lupa cumpre de queimar , se estiver situada entre os raios do sol e a superfície de um objeto.  Se o objetivo é que através da lente os  raios de sol produzam um efeito definido e observável, a lente deve estar em uma relação tal com o objeto que faça os raios de sol confluírem para um só ponto.  Esse ponto, ou foco,  recebe então toda a força dos raios que passam através da lente;  de toda a superfície ao seu redor, esse ponto é o centro da ação. Da mesma maneira a Vontade, ao concentrar a atenção, foca os raios da consciência e todas as suas forças dinâmicas inerentes sobre uma área limitada, que pode ser fisiológica, mental ou moral, conforme o caso, na  qual  está o trabalho a ser realizado.
 
Assim,  vemos que a Atenção é a concentração da Visão Mental,  mantida pela ação da Vontade. Não é uma função ou propriedade separada da mente, como a percepção, a imaginação, a  razão, etc., algo que  alguns  psicólogos poderiam levar-nos a supor. Ela é um modo de ação - o verdadeiro modo de agir da Vontade.  Em outras palavras, a atenção é a expressão definida e eficiente  da Volição ou Força de Vontade do indivíduo.
 
As funções de percepção, concepção, imaginação, etc., são instrumentos  do Eu Superior para que ele opere no mundo concreto e nas  representações mentais daquele mundo; quando uma (ou mais de uma)  destas funções opera com toda a sua força, sem dispersão em relação a qualquer objeto ao seu redor,  então existe Atenção.
 
A Vontade é a manifestação ou ação do verdadeiro Eu humano; a Atenção é o modo como aquela manifestação se mostra funcionalmente, e pela qual (e só por ela) se produzem resultados permanentes.
 
Em relação ao mundo psicológico em que a Atenção existe, podemos formular o esquema seguinte. O esquema pode ser útil para tornar mais claras as características gerais do assunto,  e indicar mais nitidamente o papel cumprido pela Atenção em todos os fenômenos psicológicos.
 
A fonte do movimento mental surge na Emoção -  o desejo de  saber.  
 
A direção do movimento é dada pela Razão - o que saber, e como.
 
O mecanismo do movimento é dado pelas Atividades Mentais (Percepção, etc.) - os meios pelos quais o conhecimento é adquirido.
 
A força que mantém o movimento está na Vontade (a energia do Eu superior), o modo pelo qual a continuidade da operação é assegurada.
 
A relação  eficiente entre os dois últimos grupos de fatores, e a  sua relação conjunta com o objeto de  estudo, dão o significado do termo Atenção.  A Vontade submete as atividades mentais à tarefa,   rígida e persistentemente.
 
O Eu Superior, através da Volição, só pode estabelecer relações com objetos externos a si através das atividades mentais - Percepção, Concepção,  Avaliação, Imaginação, etc. –  e para fazer isto, as atividades mentais devem ocorrer como uma linha direta entre o Eu Superior, representado pela Vontade, e o objeto a ser estudado,  assim como a arma de fogo do praticante de tiro ao alvo deve ser mantida com exata precisão,  longitudinalmente, entre o seu olho e o objeto que ele pretende atingir.  Se a  arma de fogo desviar-se por pouco que seja da linha exata de visão, o praticante errará o alvo; assim, também, se a Percepção,  a Concepção, a Avaliação ou a Imaginação, qualquer uma dessas atividades ou faculdades estiver em uso, e perder o seu alinhamento direto com o trabalho que está sendo realizado,  o resultado é o completo fracasso.  Nessa imagem ilustrativa, a firme manutenção da arma de  fogo em uma posição precisa é um símbolo da ação psicológica da Atenção.
 
Quando percebemos o alcance das verdades assinaladas acima, não podemos deixar de perceber a  função significativa que a atitude mental de Atenção tem, em todos os processos e esforços educacionais. Também é inegável o seu papel fundamental na criação de métodos verdadeiros e eficientes de ação cultural.  Ainda que estejam presentes a Volição, a Atividade Mental, a Luz da Razão, o Sistema Fisiológico de nervos e músculos,  e vastas quantidades de conhecimento,  que valor intrínseco e que resultado permanente podem ser alcançados com estes fatores, se não houver Atenção?
 
A educação moderna falha -  como é evidente para qualquer observador profundo da vida humana - em grande parte porque ela não dá a devida importância a este fator primordial da evolução pessoal. A inconstância, a falta  de objetivos e a mediocridade mental da vida adulta em geral, ao nosso redor, surgem desta omissão.
 
A educação moderna, com seus  inúmeros assuntos,  sua pressa de passar de um assunto para outro e sua ausência de uma meta clara, demonstra inconstância no uso do tempo e da consciência.
 
Inconstância é a antítese da Atenção Sistemática.
 
A educação moderna dirige uma área da qual nada de novo surge como fruto do seu cuidado e estímulo; ela não produz nada novo a partir do seu mundo caótico.
 
Isso resulta da inconstância dos seus métodos e da sua ação.
 
A vontade humana é um criador natural quando opera através da Atenção Concentrada. Mas a educação fracassa na sua verdadeira missão - de ser estímulo e fonte de orientação para a força criativa individual -  por causa do seu inexplicável desprezo por um princípio fundamental.
 
Sempre que se adquire uma habilidade, seja em que área for,  há uma nova criação; ela tem uma existência real e evidente e é objeto de posse e uso no mundo  da vida humana. Ela  não existia antes do seu desenvolvimento, provocado por uma Vontade pessoal que operou através das atividades mentais e influenciando um caos fisiológico.
 
Para evitar uma possível confusão ao examinar o assunto, deve-se assinalar aqui que já existe uma atitude mental à qual se aplica geralmente o termo Atenção.  Essa atitude pode ser chamada de Atenção Passiva. 
 
A Atenção Passiva governa a consciência quando alguém escuta um discurso eloquente ou uma palestra interessante.
 
Em  tais situações a Vontade está em suspenso, com a consciência provavelmente dominada por forças que  o Ocultista poderia chamar de mantrâmicas.
 
A Atenção Passiva também governa a  situação quando a mente segue uma sequência muito absorvente de pensamentos. Mas essa não é a forma  exigida para o crescimento pessoal.  Do ponto de vista educacional, ela é de pouco valor, e não tem necessariamente relação com o nosso objetivo. 
 
A Atenção cumpre um papel necessário em cada um dos níveis ou planos da vida humana:
  
1) No plano físico;  - na dimensão fisiológica dos sentidos específicos e dos sistemas nervoso e muscular.  A ação consciente sob o controle da atenção nesse plano resulta em habilidade, que é a base não só de toda arte e atuação artística, mas de cada movimento dos órgãos humanos e da sua estrutura, que seja adequadamente adaptado para o propósito prático de  expressar agilidade e harmonia.
 
2) No plano mental;  - no plano psicológico de conceitos, comparações, avaliações, deduções, especulações e ideais.  Nesse plano intelectual a energia  sob o controle da Atenção cria formas de pensamento lógico,  sistemático e consecutivo, campos de visão verdadeiramente panorâmicos, a partir de elementos intelectuais abstratos, e novas formas de emoção  que possuem poder e beleza.
 
3) No plano moral;  - na dimensão espiritual das verdades supremas, dos princípios vitais,  da busca pelo Infinito, das leis das relações humanas, e na aplicação de todos esses elementos a toda a conduta  da vida pessoal. Nessa área suprema dos sentimentos morais e das aspirações espirituais pela perfeição da vida,  a atenção se concentra sobre detalhes definidos do pensamento e do comportamento pessoais, sobre a produção de harmonia de espírito, sobre a confiabilidade da atitude, sobre a harmonia entre a conduta e os princípios, sobre o altruísmo em todas as suas formas eficazes, e o desenvolvimento de uma influência pessoal que tende sempre para a produção de uma  harmonia social vitalizadora.
 
Na evolução da vida pessoal, quando o objeto da ação  é uma área ou um detalhe de uma das dimensões mencionadas acima, a Atenção deve ser chamada de específica. Quando o controle do propósito da existência como um todo é mantido através da Atenção, estabelecendo-se uma unidade eficiente e bem ordenada entre as muitas divisões e detalhes daquele propósito, então podemos chamar a Atenção de  suprema.  
 
A idéia de “gênio” já foi definida como “uma capacidade infinita de ser meticuloso.”  A expressão “ser meticuloso” significa “dar forte atenção a pequenos detalhes”.  Uma “atenção intensa a detalhes” permite tomar  cada tijolo que será usado na construção da “mansão de todas  as formas agradáveis” - a estrutura do conhecimento pessoal, da capacidade e da habilidade pessoais  -  e colocá-lo cuidadosamente em sua  devida posição, cimentando-o de uma vez por todas.  Uma estrutura montada deste modo é substancial, espaçosa,  bonita e eficiente.
  
Esta estrutura, que resulta de infinitos cuidados continuados por muito tempo,  é o que o mundo admira e chama de Gênio.  Quase todos os seres humanos, se inicialmente guiados e apoiados ao longo  do trabalhoso caminho, e mais tarde estimulados a avançar por suas próprias Vontades, podem desenvolver alguma forma de poder e habilidade que os elevaria consideravelmente em direção àquela altura em que estão os Gênios, e desse modo o mundo comum passaria a ser muito menos vulgar, monótono e cego do que é atualmente.  Em resumo:
 
 A Atenção Concentrada é a expressão da Vontade, e a Vontade é a força animadora central, vinda do Eu Superior. A Vontade, operando com  Atenção sobre o caos do mundo que a rodeia, e coordenando as energias, as forças e as movimentações  daquele mundo, transforma-o em um território de ordem, força e propósito, que tem como centro o Eu Superior.
 
Assim ocorre uma Evolução Pessoal que resulta, a longo prazo, em uma Individualidade aperfeiçoada, um produto  da sua própria Vontade. 
 
 
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Nota dos Editores:
 
O artigo acima tem como título original “The Function of Attention in Personal Development” (“A Função da Atenção no Desenvolvimento Pessoal”) . Ele foi publicado pela primeira vez na edição de novembro de 1888 da revista teosófica “Lucifer”, de Londres (pp. 190-194).
 
A revista era editada por H.P. Blavatsky, e o nome “Lucifer” merece um comentário. A palavra significa, literalmente,  “portador da luz” e designa o planeta Vênus, a popular estrela do amanhecer e do entardecer.
 
Foi apenas o  cristianismo autoritário da idade média que preferiu inventar um significado assustador para a palavra, para assim melhor dominar os povos através da credulidade e do medo. A invenção de “Lúcifer” como um inimigo da Igreja católica foi uma desculpa teológica usada para justificar a tortura e o assassinato em nome de Deus de centenas de milhares de inocentes em todo o mundo, ao longo de vários séculos. Ao resgatar o termo usado para o planeta Vênus no mundo antigo, H.P. Blavatsky estava apenas desafiando a velha superstição ritualística da igreja romana.   
 
O artigo “The Function of Attention in Personal Development” foi reproduzido também na edição de março de 1953 da revista “Theosophy” (pp. 204-209) , de Los Angeles.
  
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Para ter acesso a um estudo diário da teosofia clássica, escreva para lutbr@terra.com.br e pergunte como é possível acompanhar o trabalho do e-grupo SerAtento.
 
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terça-feira, 26 de abril de 2011

Conversando com Sigmund Freud


Breve Diálogo Com a
Obra do Criador da Psicanálise
 
 
Carlos Cardoso Aveline
 
 
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O texto a seguir foi construído com
a mesma técnica, bibliograficamente
documentada, utilizada no livro “Conversas
na Biblioteca - um diálogo de 25 séculos”,
de Carlos Cardoso Aveline (Ed. Edifurb, 
Blumenau, 2007, 170 pp. , www.furb.br/editora ).  
 
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É grande o valor da contribuição de Sigmund Freud e da psicanálise para que se possa compreender melhor a enganosa relação da alma humana com os instintos animais.
 
Freud incluiu em suas pesquisas psicanalíticas as mais diferentes áreas de conhecimento - inclusive fisiologia, história, antropologia, mitologia e literatura de ficção - e provocou com sua obra um avanço significativo do conhecimento humano. Infelizmente, não rompeu com a visão materialista da vida e, vivendo na primeira metade do século 20, não lhe foi dado o dom do otimismo.    
 
Reconhecido como um dos pensadores mais importantes desde o surgimento da ciência moderna, Freud nasceu em seis de maio de 1856, na Morávia, e foi viver em Viena quatro anos depois. Tinha pouco mais de 40 anos quando criou a psicanálise. No final da vida, a consagração internacional veio junto com o perigo. Idoso, judeu, ele mudou-se para a Inglaterra para evitar a perseguição nazista.  Morreu em Londres aos 83 anos de idade.      
 
Todo pesquisador tem erros e acertos. As  limitações de Freud, do ponto de vista da filosofia esotérica, são evidentes. Ao examinar a emoção humana diante da beleza, por exemplo, ele afirma que a atração pelo belo é uma função sexual [1]. Esqueceu que a beleza do nascer do Sol, da lua cheia, das estrelas à noite e das paisagens naturais emociona a quase todos. Há vários outros aspectos frágeis em sua obra. Mesmo assim, o valor dela é inegável.      
 
Uma parte fundamental do pensamento de Freud ainda está por ser compreendida. A sua visão científica sobre as grandes religiões modernas é subestimada hoje inclusive nos meios esotéricos, embora todo espiritualista tenha vários motivos para libertar-se de dogmatismos e para aceitar os métodos da ciência moderna, sem cair em suas ilusões materialistas.   
 
No século 21, o enfoque de Freud sobre as religiões torna-se cada vez mais atual e necessário, enquanto o mundo enfrenta fenômenos como fanatismo fundamentalista, intolerância, guerra santa, terrorismo religioso e abuso de crianças por parte de sacerdotes católicos. 
 
Freud revelou os aspectos neuróticos e até criminosos da religião autoritária. Ele também revelou a única “divindade” em que acreditava: o Logos grego, a divina Razão universal.
 
Sua longa vida foi dedicada ao progresso da alma humana, mas não rotulou  seu próprio trabalho com slogans idealistas ou palavras-de-ordem aparentemente sublimes. Compartilhando os méritos e as limitações da ciência moderna, sua obra é uma das grandes expressões do humanismo do século 20. 
 
No campo maior do pensamento psicológico, o contraste entre Sigmund Freud e Carl Jung não é apenas pessoal, mas filosófico. Freud nunca se apresentou como espiritualista, mas defendia a ética, era judeu e foi perseguido. Jung adotou ares de espiritualista, mas ignorou a ética, escreveu textos com um tom anti-semita, não via diferença entre verdade e ilusão ou fantasia e - durante a fase ascendente do nazismo, na década de 1930 -  ocupou cargo de confiança no regime de Hitler.
 
A Psicologia vai além de Freud e Jung. Pensadores como Erich Fromm e Viktor Frankl, entre outros,  deram grandes contribuições ao pensamento psicológico, adotando pontos de vista eticamente corretos e mais claramente compatíveis com a transcendência da filosofia esotérica do que o ponto de vista adotado por Freud. Para uma avaliação adequada  das relações entre psicologia e teosofia, as ideias de Fromm e Frankl devem ser estudadas e reconhecidas.
 
A seguir, um breve diálogo com aspectos filosóficos da obra de Freud, um pensador que soube trazer para o dia claro as motivações inconscientes da alma humana, no que elas têm de primário e de instintivo, mas que também percebeu em algum momento algo maior e mais amplo, e investigou a origem da felicidade.[2]
 
 
1) O senhor não se filia à tradição esotérica, mas dá elementos para que as pessoas se libertem dos grilhões emocionais que as prendem ao mundo do desejo ilusório. O senhor não acredita nas religiões - e evita toda linguagem espiritualista - mas tem acesso a um saber que o coloca no território dos grandes pensadores de todos os tempos...
 
O nosso deus, o Logos, a Razão, talvez não seja um deus muito poderoso, e poderá ser capaz de efetuar apenas uma pequena parte do que seus antecessores [os outros deuses] prometeram.  Se tivermos de reconhecer isso, o faremos com resignação.  Não será por causa disso que perderemos nosso interesse no mundo e na vida, pois dispomos de um apoio seguro (...). Acreditamos ser possível ao trabalho científico conseguir um certo conhecimento da realidade do mundo, conhecimento através do qual podemos aumentar nosso poder e de acordo com o qual podemos organizar nossa vida.  
 
2) Para os gregos, o Logos é a razão divina. Ele pode ser percebido como uma voz suave dentro da consciência de cada ser humano. O Logos se relaciona com o Nous ou Intelecto, a inteligência pura...
 
A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue atenção. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, ela obtém êxito.  Esse é um dos pontos sobre os quais se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade e, em si mesmo, não é de pouca importância.
 
3) Os raja-iogues dos Himalaias que inspiraram a criação do movimento teosófico moderno ensinam que a busca da sabedoria divina é uma questão científica e não de crença religiosa. Um deles escreveu:“Um sentimento constante de dependência abjeta em relação a  uma Divindade vista como única fonte de poder faz com que um homem perca toda autoconfiança(...). Ele se torna como um menino e permanece assim até a idade avançada, esperando ser conduzido pela mão.” [3]  O que o senhor pensa disso? A crença religiosa convencional retira das pessoas a escolha e a responsabilidade?
 
A religião restringe o jogo de escolha e adaptação, na medida em que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar a vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante - uma maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixar as pessoas à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas de uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais que isso. Existem muitos caminhos que podem levar à felicidade possível de ser alcançada pelos homens, mas nenhum caminho que o faça com toda segurança.
 
4) Certa vez, ao visitar a Grécia, o senhor sentiu que estava rejeitando emocionalmente uma sensação de felicidade, como se fosse algo excessivamente bom, que não merecia...
 
Esse é mais um caso de “bom demais para ser verdade”, que encontramos com tanta freqüência. É um exemplo de incredulidade que surge tantas vezes quando nos surpreendemos com uma boa notícia, quando sabemos que ganhamos um prêmio, por exemplo, ou que tivemos uma vitória (...). O que acontece [nesse] caso paradoxal é simplesmente que o lugar da frustração externa é tomado pela frustração interna. O sofredor não se permite a felicidade; a frustração interna ordena-lhe que se apegue à frustração externa.  Mas por quê? Porque – essa é a resposta, em muitos casos – a pessoa não pode esperar que o Destino lhe proporcione algo tão bom. (...) Encontramos um sentimento de culpa ou de inferioridade, que pode ser traduzido assim: “Não mereço tanta felicidade, não a mereço”.
 
5) E como podemos buscar a felicidade com mais eficiência?
 
O projeto de tornar-se feliz, que o princípio do prazer nos impõe, não pode ser realizado. Contudo, não devemos -  na verdade não podemos - abandonar nossos esforços de aproximar-nos dessa realização, de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção, e podemos dar prioridade  ao aspecto positivo da meta, obter prazer, ou ao aspecto negativo, evitar o desprazer. Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o que desejamos. A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido [isto é, da administração do instinto vital] do indivíduo. Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: cada homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado a tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de  adaptá-lo a seus desejos.
 
 
NOTAS:
 
[1] “O Mal-Estar na Civilização”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 112 pp., ver pp. 32-33.
 
[2] Quando necessário para facilitar a compreensão, acrescento algumas palavras explicativas entre colchetes e em itálico. Fontes das respostas: 1) “O Futuro de Uma Ilusão”, Sigmund Freud, Ed. Imago, RJ, 87 pp., ver p. 85; 2) “O Futuro de Uma Ilusão”, obra citada, p. 83;  3) “O Mal-Estar na Civilização”, obra citada, p. 35; 4) “Um Distúrbio de Memória na Acrópole”, ver Edição Standard das Obras de Freud,  volume XXII, Ed. Imago, pp. 239 a 241;  5) “O Mal-Estar na Civilização”, ob. cit., pp. 33-34.
 
[3] “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, Ed. Teosófica, Brasília, Carta 43, primeira série, pp.103-104.
 
 
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Uma versão inicial do texto acima foi publicada na revista “Planeta”, de São Paulo, em sua edição de outubro de 2004.
 
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Para Ler Mais:
 
Para saber mais sobre a relação entre a Psicanálise e a Teosofia, veja o capítulo 11 da obra “Três Caminhos Para a Paz Interior”, de Carlos Cardoso Aveline, Ed. Teosófica, Brasília, 2002, 194 pp. O capítulo é intitulado “A Psicanálise das Religiões”.
 
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