Mestres

terça-feira, 30 de abril de 2013

MODELAGEM EM ARGILA


“O barro toma a forma
Que você quiser
Você nem sabe
Está fazendo
Apenas
O que o barro quer.”
Leminsk






Significado do Barro:
s.m. Trra vermelha, amarela ou branca, composta principalmente de alumina e sílica, que é utilizada na fabricação de telhas, tijolos, vasos, potes.
Argila, greda.
Fig. Coisa insignificante, de pouco valor
S.m.pl. Espinhas, borbulhas no rosto.

Argila e Arte Terapia
O trabalho com o barro é profundamente eficaz no processo terapêutico.
É muito maleável e simples de utilizar.
É o melhor material para sentir o processo de criação.




MODELAGEM

A modelagem em argila é o maior representante artístico das tradições culturais de um povo. O barro pode ser considerado como o material mais primitivo que conhecemos, A bíblia nos conta que Deus fez o homem a partir do barro: “ O Senhor Deus formou pois, o homem do barro da terra...” (Gênesis)
            O barro propicia uma vivência do primitivo; o toque e o seu manuseio trazem uma sensação acolhedora de maleabilidade já que vai moldando-se conforme a sua vontade. Também há uma resposta do material frente ao toque pois o barro, na medida em que vai sendo trabalhado, absorve a temperatura da pessoa, mudando assim, sua temperatura inicial.
            A argila é fria, maleável, faz sujeira mas torna-se atraente em qualquer idade. Oferece experiência tátil, e cinestésica favorecendo crianças com problemas motores e perceptuais. Como é capaz de transformar-se através da manipulação, seja amassando, esticando, espremendo, ou socando, tem uma qualidade sensual que faz uma ponte entre sentidos e sentimentos.
            O trabalho com a argila pode ser sempre refeito, consertado, enquanto ainda úmido, contribuindo para o desenvolvimento da auto estima e auto confiança. É matéria viva, alimentadora da fantasia criadora e incentivadora do espírito criador.
            No trabalho de modelagem o corpo inteiro participa, a mão complementar torna-se também ativa e estimulamos diversos sentidos. O mais óbvio é o tato, mas a argila e outros materiais modeláveis, despertam o sentido visual, térmico, o sentido do equilíbrio e o sentido cinestésico. Pode-se trabalhar com crianças maiores noções de volume, temperatura, simetria, bem como o equilíbrio e o movimento. Ao plasmar novas formas com as mãos através da modelagem, espelhamos nossa noção de esquema corporal e podemos inclusive, pelo trabalho sistemático de modelagem, interferir e modificar este esquema, “sabendo” do corpo, criando um novo corpo. Sara Paim, falando da modelagem afirma; “um corpo que faz outro corpo”.
            Ao “brincar” de modelar, vivenciamos formas, volumes, cheio/vazio, dentro/fora. Criamos texturas, superfícies lisas. Brincamos com a geometria e desenvolvemos a percepção espacial do mundo, bem como noções de orientação, direção, proporção.
            A argila promove a manifestação ativa dos processos internos mais primários porque proporciona fluidez entre material e manipulador, como nenhum outro. Através dela tem-se uma sensação de controle e domínio sobre aquilo que se produz, podendo-se remanejar, construindo e desmanchando os objetos, sem regras específicas e definidas para o seu uso. Não se comete erro ao trabalhar com argila. É fácil.
            Na maioria das vezes a argila é bem aceita, porém ocasionalmente uma criança (ou adulto) pode mostrar-se receosa da massa molhada e “suja”, fato que por si só já conta ao terapeuta muito sobre aquela criança.
            Geralmente as criações - expressões são nomeadas, facilmente surgem fantasias acerca delas proporcionando uma dramatização ou o desenrolar de pequenas cenas que dizem da vida, da história e dos sonhos dos pacientes.
            A atividade de modelagem de esculturas possibilita a criação de formas no espaço, sem excluir a vivência do plano.



Fundamentos da Arte Terapia - Sara Paim:
Na arteterapia, a arte é concebida como uma metáfora, ou melhor, como um simulacro de arte, por sua dupla condição: por um lado, o paciente não se compromete com um aprendizado sistemático das regras do ofício, nem com a criação de idéias plásticas cuja coerência estética seja completa e socialmente reconhecida; por outro lado, a arteterapia pede da arte um serviço. Esse serviço terapêutico constitui a própria definição de arte, mas projeta sobre ela a tensão contraditória inerente à possibilidade de cura. A atividade artística transforma-se assim em representação dramática da intenção criativa do sujeito. É nessa duplicidade que encontramos a eficácia terapêutica dessa modalidade clínica.

Sol da Terra o Uso do Barro Em Psicoterapia ALVARO DE PINHEIRO GOUVEA,  
Analista junguiano, o autor introduz a utilização da moldagem em barro como recurso psicoterápico. O livro relata as experiências do autor com este material no qual a relação analista-analizando ganha uma nova dimensão, Traduzida pelas esculturas, máscaras e outros objetos. Relato de casos clínicos são ilustrados com fotos de esculturas em barro devidamente analisadas. Texto inovador e importante pras terapeutas de diferentes correntes.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

DANÇATERAPIA


Febbraio 21, 2008

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Dançaterapia é um caminho de reapropriação da linguagem corporal por meio de estímulos criativos
que favorecem a conjunção do movimento ao “sentir” único e vivo de cada ser humano.
O Método Maria Fux baseia-se na possibilidade de uma mudança que permita sair e abandonar gradualmente
a rigidez, o medo, a instabilidade, independente do estado psíquico, físico e social de cada um.
O corpo humano é naturalmente predisposto ao movimento. A pele, os músculos, a estrutura óssea
são um convite constante à dança concebida como capacidade profunda de expressão, comunicação, relação.
Quando por causa da doença, dos traumas, da depressão ou da perda de interesse pelo que está ao nosso redor
nos afastamos de nós mesmos e entramos nos campos nebulosos do ” não sentir”,
a dançaterapia que é um movimento de afirmação e de recuperação também da própria identidade,
pode reconduzir à dimensão do prazer, do equilíbrio, da criação.
Essa prática não substitui intervenções clínicas, médicas ou psicológicas, mas as complementa percorrendo
caminhos outros ligados à afetividade, sensibilidade, emoção.
Nos anos dedicados à compreensão e ao aprofundamento dessa linguagem eu pude atravessar espaços geográficos,
idades diversas, estados humanos diferentes por cultura, características físicas e condições sociais.
Tentei assim entender qual a raiz comum que liga cada ser humano à sua capacidade de expressão
além das barreiras externas e internas de qualquer natureza.
Trata-se sem dúvida de uma viagem infinita, mas sinto que, no desejo secreto e comum do homem de voltar
à casa do Amor, a dançaterapia indica uma direção.
O que me guia é ter encontrado seres humanos que eu vi voltar a respirar depois de longas, às vezes infinitas, apneias.
Dedico à você, a quem dou o nome de Joana, Francisco, Maria, Antônia, todo o sentido da minha busca.
Uma manhã, num quarto de um hospital em que você se encontrava por causa de um derrame, depois de dois anos
de semi-paralisia e de cadeira de rodas, se levantou dizendo: “me lembrei de estar viva!”.
Graças a você e a quem como você encontra a coragem de dizer “sim”, continuo eu também dançando.”
Pio Campo

sábado, 27 de abril de 2013

O que pensam sobre percepção?


PRÉ-SOCRÁTICOS

"(...) considera com teus sentidos como cada coisa é clara. Não dês maior confiança ao olhar do que a que corresponde ao ouvido; e não estimes o ruidoso ouvido acima das claras instruções da língua; e não recuses confiança às outras partes do teu corpo, pelas quais há acesso à inteligência..."


Empédocles (~495-35 a.C), citado em CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia - Dos Pré-Socráticos a Aristóteles, Ed. Brasiliense, 1994



"Heráclito, devido ao fato de ainda acreditar que o homem dispunha de dois órgãos para o conhecimento da verdade — a sensação e a razão —, considerava (...) que, tratando-se destes dois órgãos, a sensação não é digna de confiança, ao passo que colocava a razão como critério. De fato, ele recusa a sensação, dizendo textualmente: os olhos e os ouvidos são maus testemunhos para as almas surdas à sua linguagem. O que é o mesmo que dizer que ´é próprio das almas bárbaras atribuir fé aos sentidos desprovidos de razão`."


Sexto Empírico (fl.c.200a.C), comentando o pensamento de Heráclito de Éfeso (~V a.C), em Les Écoles Présocratiques, Ed. Folio-Gallimard, 1991



PLATÃO

"(...) Quero dizer mais ou menos isso: a visão, ou ainda a audição, contém, para os homens, uma verdade qualquer? (...) Porém, se entre as percepções do corpo, estas duas não são nem claras nem exatas, imagine então as outras. Pois todas são, creio, mais imperfeitas que aquelas. (...) Em qual momento, diz Sócrates, a alma apreende a verdade? Ora, sempre que ela se serve do corpo para tentar examinar algo, é evidente que é totalmente enganada por ele (...)"


Platão, no Fédon, citado em La Sensation, Ed. Flammarion, 1997



REICH

"No fundo, a natureza dentro e fora de nós , só é intelectualmente acessível através de nossas impressões sensoriais. As impressões sensoriais são, basicamente, sensações de órgão, ou, colocando de outra maneira, nós tateamos o mundo que nos rodeia através de movimentos de órgãos (=movimentos plasmáticos)."


REICH, Wilhelm. Ether, God and Devil/Cosmic Superimposition. Nova Iorque, Farrar, Straus and Giroux, 1973


"Se nossas 'impressões' dos movimentos vitais refletem corretamente sua 'expressão'; se as funções básicas da vida são idênticas em toda a matéria viva; se as sensações nascem das emoções; e se as emoções brotam de movimentos plasmáticos reais, então nossas impressões devem ser objetivamente corretas, contanto que, obviamente, nosso aparelho sensorial não esteja fragmentado, encouraçado ou alterado de algum outro modo." 


REICH, Wilhelm. Ether, God and Devil/Cosmic Superimposition. Nova Iorque, Farrar, Straus and Giroux, 1973



ARNHEIM

"(...) o conjunto das operações cognitivas chamadas pensamento não são um privilégio das operações mentais localizadas acima e para além da percepção, mas sim ingredientes essenciais da própria percepção (...) não vejo como eliminar a palavra 'pensar' do que ocorre na percepção. Não parece existir nenhum processo do pensar que, ao menos em princípio, não opere na percepção"


Arnheim, Rudolf. El Pensamiento Visual, Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1985


"Ao olhar um objeto, procuramos alcança-lo. Como um dedo invisível, movemo-nos através do espaço que nos cerca, dirigimo-nos aos lugares distantes aonde se encontram as coisas, tocamo-las, agarramo-las, examinamos suas superfícies, seguimos seus limites, exploramos sua textura. Esta é uma tarefa eminentemente ativa."


Arnheim, Rudolf. El Pensamiento Visual, Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1985


MERLEAU-PONTY

"Mas, quando contemplo um objeto com a única preocupação de vê-lo existir e descobrir diante de mim as suas riquezas, então ele deixa de ser uma alusão a um tipo geral, e eu me apercebo de que cada percepção, e não apenas aquela dos espetáculos que descubro pela primeira vez, recomeça por sua própria conta o nascimento da inteligência e tem algo de uma invenção genial: para que eu reconheça a árvore como árvore, é preciso que, abaixo desta significação adquirida, o arranjo momentâneo do espetáculo sensível recomece, como no primeiro dia do mundo vegetal, a desenhar a idéia individual desta árvore."


Ponty, Merleau-. Fenomenologia da Percepção. São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1994


"O verdadeiro Cogito não substitui o próprio mundo pela significação mundo."

Ponty, Merleau-. Fenomenologia da Percepção. São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1994


LURIA

"A moderna psicologia da percepção (...) considera a percepção como um processo ativo da busca da correspondente informação, distinção das características essenciais de um objeto, comparação das características entre si, criação de uma hipótese apropriada e, depois, comparação desta hipótese como os dados originais." 


LURIA, A. R. El Cerebro en Acción. Barcelona, Editorial Fontanella, 1979

Percepção e Realidade – introdução ao estudo da atividade perceptiva

Antônio Gomes Penna , Ed. Imago, R.J. 1993

Resumo:

A percepção é forma restrita de captação de conhecimentos. Tradicionalmente, a percepção foi conceituada como processo interpretativo, operando sobre dados sensoriais. Distinguiam-se, assim, no domínio do conhecimento sensível, duas fases, etapas ou planos: representações pela sensação e pela percepção. 
A conduta é um processo de readaptação. Sua eficiência depende de que se possa dispor sempre de informações corretas sobre o meio que nos envolve, informações essas recolhidas através dos processos perceptuais. Perceber, de fato, é conhecer para com base nos dados recolhidos, promover-se a coordenação da conduta. 
Segundo Osgood, seis propriedades particularizam a percepção: organização, totalidade, constância, transponibilidade, seletividade e flexibilidade ou dinamismo. 
O processo de perceber não se restringe a ser atividade de pura e simples assimilação de um componente figura, mas corresponde a uma total assimilação desses componentes e de todo o sistema contextual no qual se incluem como partes integrantes. 
Perceber, então, é perceber um campo total constituído de figura e fundo, de tema e campo temático, ou, ainda, de formas e horizontes nos quais elas se recortam e em função dos quais se projetam como unidades destacadas. 
A expressão percepção social é ambígua: tanto designa o caráter social do ato de perceber como a apreensão perceptual de situações sociais, sendo preferível substituí-la por fatores sociais da percepção. 
A percepção de pessoas inclui duas questões: a percepção do próprio e a percepção do outro. 
Quanto ao modo como chegamos a nos conhecer, parece correto dizer que o conhecimento se obtém não só pela avaliação de nossos próprios resultados, como pelo modo como são percebidos e julgados, dentro do grupo a que estamos ligados, pelos que convivem conosco. Quanto à percepção do outro, a questão envolve aspectos excepcionalmente importantes, em que os dados utilizados não são meramente justapostos ou associados, mas integrados numa estrutura de tipo supersomativo ou gestáltico. Investigando, particularmente, os aspectos expressivos que integram os processos perceptuais. surgiu o movimento denominado Nem Look in Perception, integrado por Bruner, Postman, Krech, Sandford, Sherif, Murphy etc., considerado o primeiro movimento organizado nos Estados Unidos para o estudo sistemático dos processos perceptivos, embora centrado, realmente, na pesquisa dos fatores emocionais, motivacionais e personalísticos que atuam como variáveis na percepção

quarta-feira, 17 de abril de 2013

AMOR


"O amor é porque é, não tem uma razão de direito. As coisas mais essenciais que a gente quer, quer sem explicação". (Jorge Forbes - Psicanalista)

Morremos, é fato. Fenômeno óbvio – sabemos racionalmente. Mas, não raro, o tratamos como se fosse exceção. E o fazemos não só pelo apego à vida, mas possivelmente também pela falta de representação subjetiva dessa experiência. Por mais que prevaleça a negação – principalmente numa cultura como a nossa, que nos convida a viver para sempre – e o incômodo em relação a esse desfecho, é impossível escapar do que está por vir. Morre-se a qualquer momento (não diz o ditado que basta estar vivo?), é inegável. Mas quanto mais os anos passam, temos consciência – sim, em algum lugar de nós temos certeza – de que nos resta menos tempo a cada dia. Curioso é que diante do inevitável quedamos abismados, como se tivéssemos sido traídos. E se haver-se com a própria morte é difícil, assistir a um objeto de amor definhar de forma irreversível é uma experiência complexa, que desperta uma gama de sentimentos. E, principalmente, nos coloca de forma direta com a finitude. É assim no premiado Amor.
O austríaco Michael Haneke, autor, diretor e roteirista, estudou psicologia e filosofia na Universidade de Viena – uma formação que provavelmente contribui para que apresente maneiras menos idealizadas de ver o ser humano e as relações. O filme, aliás, apresenta uma lição desconfortável: o amor não vence tudo e – por mais que tenhamos vivido belas histórias, apreciado obras de arte, criado filhos, construído relacionamentos – o peso da decadência sempre nos ronda. Além disso, o filme nos lembra quanto é trabalhoso morrer.
Muito além da angústia propriamente dita, dos dramas existenciais, do luto, do sofrimento e dos problemas sociais e mesmo das questões práticas, há imenso esforço – tanto físico quanto psicológico – envolvido no percurso rumo à morte. E não apenas de quem morre, mas também daquele que, por necessidade ou por escolha, acompanha esse processo – e, desta forma, também termina por morrer um pouco.
O diretor do intrigante A fita branca, que mostra primórdios da insanidade nazista, e de Caché, sobre a violência dissimulada, expõe desta vez os últimos dias de um simpático casal de idosos, Georges, vivido por Jean-Louis Trintignant, e Anne, interpretada por Emmanuelle Riva. Num exercício de despojamento, os dois atores – que, quando jovens foram ídolos do cinema – expõem ao olhar impiedoso das câmeras rostos sulcados pelas rugas, cabelos ralos e desgrenhados e corpos enfraquecidos.
Já na cena de abertura o espectador – mesmo o mais desavisado – percebe qual será o desfecho quando bombeiros arrombam a porta do apartamento do casal, abrem as janelas e constatam o falecimento de Anne, possivelmente ocorrido há alguns dias. Seu corpo, rodeado de pequenas flores, foi cuidadosamente arrumado sobre a cama – ela vestida com esmero e penteada. Meses antes, os dois músicos aposentados viviam uma intimidade marcada pela ternura: passeiam, vão a um concerto e administram as questões do dia a dia. Ele elogia a beleza da mulher: “Eu me lembrei de dizer que esta noite você estava realmente bonita?”. O cenário é um apartamento também antigo, algo sombrio, porém espaçoso e ainda confortável, repleto de livros, quadros e discos – objetos que testemunham uma vida marcada pelo gosto pelas artes. Mas de repente – aliás, como acontece não só nos filmes, mas também na vida – sobrevém a tragédia: Anne sofre um acidente vascular cerebral que paralisa metade de seu corpo e a deixa numa cadeira de rodas.
Em Amor, assistimos impotentes à entrada em cena de dois grandes fantasmas da velhice: a solidão e a dependência. Talvez a desventura pareça ainda mais inquietante porque os protagonistas são dois intelectuais da alta burguesia, com recursos culturais e econômicos que – pelo menos teoricamente – deveriam protégé-los da catástrofe.<;p>
Enquanto ainda tem condições de se expressar, ela procura reagir com dignidade. Mesmo abatido, Georges cuida dela delicadamente: ajuda a despir-se, usar o vaso sanitário, tomar banho e comer. Anne não deixa de dizer “por favor” e “obrigada”. Mas a angústia e o medo do futuro dominam a ambos a cada momento. “Prometa-me que não me levará mais ao hospital”, pede a mulher com a voz tranquila e firme, assim que chegam em casa, após a alta médica. Embora permaneça em silêncio, o marido irá procurar atender a esse desejo, da melhor forma que lhe é possível. O compromisso, porém, é penoso: ele assume pessoalmente a maioria dos cuidados cotidianos, enquanto as condições de Anne pioram.
No decorrer do filme, os diálogos aparecem gradativamente mais rarefeitos, não há música de fundo; o que prevalece é a sensação do enorme esforço físico do marido para levantar a doente, alimentá-la, acompanhá-la ao banheiro, resignar-se enfim a colocar-lhe o fraldão. Conversa com ela e canta, mesmo quando Anne não faz mais do que apenas balbuciar. Um dos momentos impactantes é sua exasperação quando Anne insiste em não comer a papa que ele lhe oferece às colheradas. Sim, é possível entendê-la: perdeu-se de si mesma de uma hora para outra, o corpo não responde a seus comandos, está emocionalmente cansada, profundamente triste e debilitada; a recusa da comida é arecusa da vida. Ele, por sua vez, exausto e desamparado, tem cada vez mais dificuldade de sustentar Anne – seja fisicamente, para mudá-la de posição, ou emocionalmente, para mantê-la viva. Nessa fase, Georges se nega a atender o telefone; por orgulho ou pudor, não quer receber visitas e expor sua miséria. Anne não deseja nem ouvir música, há uma progressiva restrição dos interesses e da energia vital, tudo parece concentrado na mera sobrevivência.
Para aliviar a demanda, Georges chega a contratar duas enfermeiras, pagas por hora. Porém, ambas pouco envolvidas afetivamente e ele descobre que ter as profissionais por perto pode ser ainda mais desgastante. Paralelamente, a frieza e o descomprometimento de Eva, única filha do casal, vivida Isabelle Huppert, tornam o abandono ainda mais evidente. Ocupada com a própria vida, se emociona e se “preocupa”, desde que o drama dos pais não ameace suas prioridades. A única ligação dos idosos com o mundo externo acaba sendo o casal de prestativos porteiros, que sobem de vez em quando para limpar um pouco a casa ou, incentivados por gorjetas, fazem compras.
O desafio da trama parece ser dar sentido justamente ao que escapa ao sentido. Uma metáfora dessa busca parecem ser as cenas do pombo que insiste em entrar por uma janela aberta e Georges, repetidamente, se empenha em espantá-lo. Podemos pensá-las como uma representação da realidade inexorável do envelhecimento e da finitude que ganham espaço por mais que desejemos afastá-las. Talvez uma das coisas mais tocantes de Amor seja o fato de que é incomodamente possível, factível, verdadeiro. Poderia ser comigo. Poderia ser com você. Talvez um dia seja...


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terça-feira, 16 de abril de 2013

Inconsciente - Psicanálise x Nietzsche


Em nosso texto anterior - CHEGANDO AO INCONSCIENTE - e pelas afirmações de Jung ,vemos como sempre se fala do inconsciente a partir do consciente, até mesmo como a sua negação, mas o que é inconsciente?



No dicionário Caldas Aulete encontramos:
“ Inconsciente – que não tem consciência de si mesmo, dos seus atos; a parte de nossa vida psíquica excluída da consciência por recalcamento.”

Assim, inconsciente sempre aparece como adjetivo, como aquilo que não é consciente.

Freud porém nos apresenta o ICS como substantivo, como um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria.

Na 1ª tópica Freud sistematiza o ICS tentando ordenar os conteúdos representativos das pulsões. Segundo Zeferino Rocha “ numa atitude apolínea”,.... tenta controlar com a razão o mundo irracional do ICS.”
Na 2ª tópica Freud dá prioridade à dimensão pulsional do ICS, passando a “ocupar o 1º plano o elemento dionisíaco”.

Freud apela para um além da razão.

Assim podemos definir, baseados em Freud, o ICS como:

 um sistema dinâmico regido pelo processo primário, que se estrutura como um campo de forças.

Muitas vezes – antes e depois de Freud – o ICS foi identificado com o caos, o ilógico, o mistério.

Segundo Scarlett Marton o termo ICS no pensamento de Nietzsche designa o domínio que escapa à linguagem, o domínio do indizível, não podendo remeter a nenhum princípio ordenador mas significando silêncio, singularidade, indizibilidade.

O ICS então, não seria derivado da consciência, não seria formado de conteúdos recalcados de representações conscientes.

Deleuze distingue dois usos do termo ICS na obra de Nietzsche: um para caracterizar a atividade, de forma geral, e outro para designar um dos sistemas do aparelho reativo. As forças reativas sempre limitam a ação, dividem. As forças ativas são um estado de expansão, intensificação; elas afirmam a potência, criam valores.

Para Naffah Neto “ o ICS ativo é que constitui de fato o ICS no sentido forte do termo. O ICS reativo só é ICS no sentido tópico do conceito, quer dizer, na medida em que ele corresponde a um passado que precisa se manter afastado da consciência para que esta acompanhe os movimentos do real, e o presente possa ser o tempo dominante. Em outros termos, ele só é ICS porque o homem está constituído por uma temporalidade e precisa, devido às necessidades adaptativas, manter um reservatório de memória disponível à consciência mas distinto dela.

.......”já disse Suely Rolnik: Ele (o ICS) designa um universo indizível e invisível, marginal à consciência e com o qual é preciso entrar em ressonância.  Invisível e indizível, porque é fluxo, devir, sem forma ou representação definida, campo de forças móveis e vibráteis. Espaço virtual, gerador de novos códigos, onde reencontramos a pulsação da vida na sua forma afirmativa: o sim inicial a tudo o que é humano”.............

Com base no princípio  nietzschiano, o ICS seria um conjunto de forças móveis, indizíveis/invisíveis, que não tolera formas fechadas, acabadas, excludentes; não conhece ordem; suas leis são o acso, o devir, a multiplicidade. Não conhece morada fixa, sendo o eterno construir e destruir de si próprio.

O ICS de Freud – do recalcado,  não se opõe ao ICS da vontade de potência, do esquecimento  de Nietzsche. Em arte terapia trabalhamos somando conceitos, teorias, experiências.

É necessário estabelecer a diferença entre recalque e esquecimento.
O recalque é um dos destinos do representante ideativo das pulsões, tendo por finalidade evitar o desprazer. O outro representante psíquico da pulsão – o afeto – não pode, ele mesmo, ser recalcado. O que se torna ICS é a idéia à qual o afeto estava ligado, podendo também ser deslocado para outra idéia.
Em outras palavras o recalque afasta as representações da consciência, separando-as das palavras, evitando o desprazer. Entretanto estas representações continuam atuando de forma subterrânea, reaparecendo através do retorno do recalcado.
O esquecimento é um mecanismo não consciente, que descreve um processo de elaboração ativa de digestão das experiências, ou seja, a plasticidade das forças ativas regenera, remodela, torna possível a digestão das experiências.

            Viver – isso significa para nós: transmudar constantemente tudo o que somos em luz e chama; e também tudo que nos atinge; não poderíamos absolutamente fazer de outro modo.
                                                          

........um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente mudando, eternamente recorrentes, com descomunais anos de retorno, como uma vazante e enchente de suas configurações, partindo das mais simples às mais múltiplas, do mais quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez voltando da plenitude ao simples, do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância (..), como um vir a ser que não conhece nenhuma sociedade, nenhum fastio, nenhum cansaço – esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio (..) quereis um nome para esse mundo? (..) Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós sois essa vontade de potência – e nada além disso.
Nietzsche




Fontes: 
Freud: Aproximações, Zeferino Rocha
O Inconsciente como potência subversiva, Alfredo Naffah Neto