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terça-feira, 16 de abril de 2013

Inconsciente - Psicanálise x Nietzsche


Em nosso texto anterior - CHEGANDO AO INCONSCIENTE - e pelas afirmações de Jung ,vemos como sempre se fala do inconsciente a partir do consciente, até mesmo como a sua negação, mas o que é inconsciente?



No dicionário Caldas Aulete encontramos:
“ Inconsciente – que não tem consciência de si mesmo, dos seus atos; a parte de nossa vida psíquica excluída da consciência por recalcamento.”

Assim, inconsciente sempre aparece como adjetivo, como aquilo que não é consciente.

Freud porém nos apresenta o ICS como substantivo, como um sistema psíquico distinto dos demais e dotado de atividade própria.

Na 1ª tópica Freud sistematiza o ICS tentando ordenar os conteúdos representativos das pulsões. Segundo Zeferino Rocha “ numa atitude apolínea”,.... tenta controlar com a razão o mundo irracional do ICS.”
Na 2ª tópica Freud dá prioridade à dimensão pulsional do ICS, passando a “ocupar o 1º plano o elemento dionisíaco”.

Freud apela para um além da razão.

Assim podemos definir, baseados em Freud, o ICS como:

 um sistema dinâmico regido pelo processo primário, que se estrutura como um campo de forças.

Muitas vezes – antes e depois de Freud – o ICS foi identificado com o caos, o ilógico, o mistério.

Segundo Scarlett Marton o termo ICS no pensamento de Nietzsche designa o domínio que escapa à linguagem, o domínio do indizível, não podendo remeter a nenhum princípio ordenador mas significando silêncio, singularidade, indizibilidade.

O ICS então, não seria derivado da consciência, não seria formado de conteúdos recalcados de representações conscientes.

Deleuze distingue dois usos do termo ICS na obra de Nietzsche: um para caracterizar a atividade, de forma geral, e outro para designar um dos sistemas do aparelho reativo. As forças reativas sempre limitam a ação, dividem. As forças ativas são um estado de expansão, intensificação; elas afirmam a potência, criam valores.

Para Naffah Neto “ o ICS ativo é que constitui de fato o ICS no sentido forte do termo. O ICS reativo só é ICS no sentido tópico do conceito, quer dizer, na medida em que ele corresponde a um passado que precisa se manter afastado da consciência para que esta acompanhe os movimentos do real, e o presente possa ser o tempo dominante. Em outros termos, ele só é ICS porque o homem está constituído por uma temporalidade e precisa, devido às necessidades adaptativas, manter um reservatório de memória disponível à consciência mas distinto dela.

.......”já disse Suely Rolnik: Ele (o ICS) designa um universo indizível e invisível, marginal à consciência e com o qual é preciso entrar em ressonância.  Invisível e indizível, porque é fluxo, devir, sem forma ou representação definida, campo de forças móveis e vibráteis. Espaço virtual, gerador de novos códigos, onde reencontramos a pulsação da vida na sua forma afirmativa: o sim inicial a tudo o que é humano”.............

Com base no princípio  nietzschiano, o ICS seria um conjunto de forças móveis, indizíveis/invisíveis, que não tolera formas fechadas, acabadas, excludentes; não conhece ordem; suas leis são o acso, o devir, a multiplicidade. Não conhece morada fixa, sendo o eterno construir e destruir de si próprio.

O ICS de Freud – do recalcado,  não se opõe ao ICS da vontade de potência, do esquecimento  de Nietzsche. Em arte terapia trabalhamos somando conceitos, teorias, experiências.

É necessário estabelecer a diferença entre recalque e esquecimento.
O recalque é um dos destinos do representante ideativo das pulsões, tendo por finalidade evitar o desprazer. O outro representante psíquico da pulsão – o afeto – não pode, ele mesmo, ser recalcado. O que se torna ICS é a idéia à qual o afeto estava ligado, podendo também ser deslocado para outra idéia.
Em outras palavras o recalque afasta as representações da consciência, separando-as das palavras, evitando o desprazer. Entretanto estas representações continuam atuando de forma subterrânea, reaparecendo através do retorno do recalcado.
O esquecimento é um mecanismo não consciente, que descreve um processo de elaboração ativa de digestão das experiências, ou seja, a plasticidade das forças ativas regenera, remodela, torna possível a digestão das experiências.

            Viver – isso significa para nós: transmudar constantemente tudo o que somos em luz e chama; e também tudo que nos atinge; não poderíamos absolutamente fazer de outro modo.
                                                          

........um mar de forças tempestuando e ondulando em si próprias, eternamente mudando, eternamente recorrentes, com descomunais anos de retorno, como uma vazante e enchente de suas configurações, partindo das mais simples às mais múltiplas, do mais quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez voltando da plenitude ao simples, do jogo de contradições de volta ao prazer da consonância (..), como um vir a ser que não conhece nenhuma sociedade, nenhum fastio, nenhum cansaço – esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio (..) quereis um nome para esse mundo? (..) Esse mundo é a vontade de potência – e nada além disso! E também vós sois essa vontade de potência – e nada além disso.
Nietzsche




Fontes: 
Freud: Aproximações, Zeferino Rocha
O Inconsciente como potência subversiva, Alfredo Naffah Neto

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