Mestres

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Crônica da Loucura - Luiz Fernando Veríssimo


O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois
tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o
analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco
pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os
dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.

Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um
louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco
confesso, que estou adorando estar louco semanal.

O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os
meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa
grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem
três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a
pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como escritor,
adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm,
se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.

Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala
de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente
normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um
prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:

Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito  bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda.

Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um
deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram
loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.

(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o
nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela poltrona de vime.
Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não
conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis
estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar
dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que
ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro.
Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo.
Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser  perigoso. Afastei-me um
pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala
assassina.

(3 )E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como
ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um
pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso
sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança
total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse
meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas
quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da
outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia
morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual?
Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.

(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda
imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer
amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o
problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e
começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no
quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos
dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas
de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe
rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse. Acabou o meu tempo.
Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.

Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri, .....  ri muito,
o meu psicanalista,  e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de
remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- E  você, não vai ter alta tão cedo..."

(Crônica da Loucura - Luiz Fernando Veríssimo)

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